A inspiração de Luísa Maita alimenta-se da tradição musical
brasileira na mesma intensidade com que frequenta a prateleira do pop
americano. Para Luísa, não há diferença sensível entre João Gilberto e
Michael Jackson, Nana Caymmi e Beyoncé, funk carioca e R&B como
mostra este “Lero-Lero”, primeiro álbum da cantora e compositora
paulistana lançado no Brasil pelo selo Oi Música.
Como compositora Luísa Maita é uma cronista que não só observa, mas
participa da cidade, caminha pelas avenidas e vielas do centro e da
periferia à procura de estalos poéticos e melódicos. Essa facilidade com
o trato da canção foi identificada pela cantora Virgínia Rosa quando
decidiu gravar dois sambas de Luísa – “Madrugada” e “Amado Samba” – e
por Mariana Aydar que incluiu em seu segundo álbum a canção “Beleza”
(uma parceria com Rodrigo Campos), eleita uma das melhores músicas de
2009 pela revista Rolling Stone Brasil.
A intérprete Luísa usa a sensualidade de forma subtil como forma de
transmitir sensações, como instrumento de comunicação. Parece mesmo ter
encontrado a medida certa para, em suas próprias palavras, “atingir o
máximo de expressão com o mínimo de afectação”. Essa característica pode
ser verificada (ainda que de maneira mais tímida) em algumas faixas do
álbum de seu primeiro grupo, a Urbanda. A personalidade musical de Luísa
ganha mais força nas participações que fez no disco “São Mateus Não É
Um Lugar Assim Tão Longe” de Rodrigo Campos e “Alborada do Brasil” de
Carlos Nuñez e também em sua interpretação para os vídeos da candidatura
do Rio de Janeiro para as Olimpíadas de 2016 dirigidos por Fernando
Meirelles.
Mas em nenhum desses trabalhos Luísa Maita se revela como em
“Lero-Lero” que sintetiza compositora e intérprete, une referências
musicais e pessoais com preciosismo e despojamento. Síntese cujas
medidas foram assimiladas por Paulo Lepetit, o alfaiate produtor do
álbum, que lhe conferiu uma vibração contemporânea através dos
beats e
programações electrónicas e por Rodrigo Campos (co-produtor ao lado de
Luísa) e seu violão afro que dialoga no mesmo volume com a base rítmica
das canções.
O álbum é pontuado por influências da música pop e electrónica
indissociáveis da base acústica profundamente enraizada no samba, na
bossa nova e na música popular brasileira. Os temas apresentam uma
galeria de ritmos tradicionais do Brasil: do samba ao
maculelê, da bossa
nova ao
baião. No entanto, aparecem desconstruídos, muitas vezes
reduzidos às células rítmicas básicas que se transformam com os timbres electrónicos dos
beats e com a instrumentação acústica.
Além de Paulo Lepetit e Rodrigo Campos, o disco conta com a
participação dos músicos Kuki Storlarski e Sérgio Reze (bateria), Théo
da Cuíca e Jorge Neguinho (cuíca), Siba (rabeca), Fabio Tagliaferri
(viola) e Swami Jr (violão).
Com o filtro da sensibilidade, Luísa recorta pedaços da história
musical brasileira, do quotidiano da cidade de São Paulo e de seu povo.
Juntando as faixas, salta aos ouvidos uma unidade, uma massa sonora de delicadeza, sensualidade e autenticidade. Um exemplo da constante
evolução e reinterpretação da música brasileira, a estreia de Luísa
Maita exibe uma artista exposta à tradição e modernidade, enraizada à
vida contemporânea, pronta para devolver tudo aquilo que absorveu de sua
família, da cidade e das pessoas: a música.